Trump ameaça adiar ida à China e pressiona Pequim por ajuda para reabrir o Estreito de Ormuz

Em meio à guerra com o Irã e à disparada do petróleo, presidente dos EUA tenta envolver chineses em coalizão naval e eleva tensão diplomática com Pequim

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou que pode adiar a viagem que faria à China no fim deste mês enquanto intensifica a pressão sobre Pequim para que participe de uma coalizão internacional destinada a reabrir o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. A declaração amplia o peso diplomático do impasse no Oriente Médio e adiciona um novo capítulo à já delicada relação entre as duas maiores economias do planeta.

Em entrevista ao Financial Times no domingo (15), Trump afirmou que gostaria de saber, antes de embarcar para a China, se o governo de Xi Jinping está disposto a colaborar com os esforços para garantir a retomada segura do tráfego de petroleiros na região. O republicano argumentou que, por depender fortemente do petróleo do Oriente Médio, a China teria interesse direto na estabilização da passagem marítima.

A fala ocorre em um momento de forte escalada da crise internacional. A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel provocou alta expressiva nos preços do petróleo, com reflexos diretos no valor dos combustíveis e aumento da pressão econômica tanto em Washington quanto em Pequim. Nos Estados Unidos, o avanço dos preços nas bombas já entra no radar político em meio ao aquecimento da temporada eleitoral de 2026.

Segundo Trump, os Estados Unidos vêm buscando apoio de outros países para montar uma força de proteção marítima no Estreito de Ormuz. Inicialmente, o presidente havia minimizado a ameaça iraniana e afirmado que navios da Marinha americana seriam suficientes para escoltar petroleiros. Mas, diante da disparada do petróleo e do risco de desabastecimento em mercados estratégicos, o governo passou a admitir a necessidade de um esforço mais amplo e multinacional.

Mais cedo, a Casa Branca indicou que já conversou com cerca de sete países sobre eventual apoio militar à operação, embora Trump tenha evitado revelar quais seriam essas nações. Questionado diretamente sobre a China, o presidente respondeu de forma ambígua, mas deixou claro que a proposta foi colocada na mesa.

“A China é um estudo de caso interessante”, afirmou Trump, ao mencionar a dependência chinesa do petróleo vindo do Golfo. Em seguida, relatou ter perguntado aos chineses se gostariam de participar da iniciativa. “Talvez participem, talvez não”, disse.

A eventual suspensão da viagem presidencial à China, porém, pode gerar efeitos políticos e econômicos relevantes. O encontro entre Trump e Xi Jinping vinha sendo tratado como uma oportunidade para reduzir tensões bilaterais após meses de atritos comerciais, ameaças tarifárias e disputas diplomáticas. Nesta segunda-feira (16), o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, se reuniu em Paris com o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, em mais uma rodada de negociações comerciais destinada justamente a preparar o terreno para a visita de Trump.

Embora Washington e Pequim tenham anunciado uma trégua temporária em sua disputa comercial, o ambiente segue marcado por desconfiança. Um eventual adiamento da viagem poderia abalar ainda mais a tentativa de reaproximação e reacender temores de uma nova rodada de instabilidade nos mercados globais.

Do lado iraniano, o tom também continua duro. Em entrevista à emissora CBS, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que Teerã foi procurado por vários países interessados em garantir passagem segura para suas embarcações na região. Segundo ele, já houve autorização para que um grupo de navios de diferentes países atravessasse a área, embora sem detalhar quais bandeiras estavam envolvidas.

Araghchi ressaltou, no entanto, que a decisão final sobre a segurança do estreito cabe às Forças Armadas iranianas. Ele ainda descartou, neste momento, qualquer possibilidade de diálogo com os Estados Unidos para encerrar a guerra, acusando Washington e Israel de terem iniciado o conflito com ataques coordenados em 28 de fevereiro, quando ainda havia negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano.

O chanceler iraniano também afirmou que Teerã não pretende recuperar o urânio enriquecido que teria permanecido sob escombros após ataques realizados anteriormente por forças americanas e israelenses. A declaração reforça o clima de incerteza sobre os próximos passos do regime iraniano e sobre o futuro das negociações nucleares.

Enquanto isso, a China mantém discurso cauteloso. Um porta-voz da embaixada chinesa em Washington evitou se comprometer diretamente com o pedido americano para integrar uma operação naval no Estreito de Ormuz. Em nota, afirmou apenas que Pequim seguirá em contato com as partes envolvidas no conflito e buscará desempenhar um “papel construtivo” para promover a desescalada e restaurar a paz na região.

A postura reflete o delicado equilíbrio que a China tenta manter: preservar seus interesses energéticos no Oriente Médio, evitar envolvimento militar direto e, ao mesmo tempo, não fechar portas para uma negociação diplomática mais ampla com os Estados Unidos.

No centro dessa disputa está o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta. Qualquer ameaça à navegação no local tem impacto quase imediato no mercado internacional de energia, elevando custos logísticos, pressionando a inflação e aumentando o risco de desaceleração econômica global.

Ao transformar a participação chinesa em condição política para sua viagem, Trump aumenta a pressão sobre Xi Jinping e tenta dividir com Pequim a responsabilidade pela segurança energética mundial. Mas também aposta alto: se a China rejeitar o convite, o gesto poderá aprofundar o afastamento entre os dois países em um momento já marcado por guerra, tensão comercial e forte volatilidade econômica.