Operação articulada pelo governo Lula prevê remessa de alimentos e medicamentos e vem sendo tratada com discrição em meio ao agravamento da situação econômica e energética cubana
O governo brasileiro prepara o envio de uma ampla ajuda humanitária a Cuba, em meio ao agravamento da crise econômica e energética enfrentada pela ilha. Segundo apuração publicada pela BBC News Brasil, a operação começou a ser discutida em fevereiro e envolve cerca de 21 mil toneladas de mantimentos, após pedido feito pelo governo cubano ao Brasil. A negociação, de acordo com a reportagem, vinha sendo conduzida com discrição pelo Palácio do Planalto em um ano eleitoral.
Nos bastidores, a cautela do governo buscava evitar a politização do tema. A BBC informou que a quantidade final e a data de envio ainda dependiam de acertos entre os dois países e da disponibilização, por parte de Cuba, de um navio para transportar a carga. Posteriormente, o Itamaraty confirmou a jornalistas que a operação inclui mais de 20 mil toneladas de alimentos, além de remessas de medicamentos já iniciadas.
De acordo com informações divulgadas pelo Poder360 e por Veja, uma primeira remessa de 2,5 toneladas de medicamentos já foi enviada a Havana por via aérea. O governo brasileiro também organiza uma segunda etapa, maior, com 80 toneladas de remédios e 20,8 mil toneladas de alimentos não perecíveis, entre eles arroz, feijão preto e leite em pó. O transporte da carga principal deve ocorrer por via marítima, com apoio do Programa Mundial de Alimentos da ONU e coordenação da Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Itamaraty.
Os números mostram o peso da operação. Em publicação oficial divulgada em 13 de março, a Agência Brasileira de Cooperação informou que, entre julho e dezembro de 2025, o Brasil enviou 45,5 toneladas de ajuda humanitária a 22 países, incluindo refeições desidratadas, medicamentos, insumos médicos e vacinas. Isso significa que a ajuda em preparação para Cuba é muito superior, sozinha, a todo o volume de insumos físicos enviado pelo país naquele período a dezenas de outras nações.
A iniciativa também dialoga com a posição política já manifestada por Luiz Inácio Lula da Silva. Em discurso no aniversário do PT, em fevereiro, o presidente afirmou que o Brasil é “solidário ao povo cubano” e disse que o partido precisava “encontrar um jeito de ajudar” a ilha, que ele descreveu como vítima de um “massacre de especulação” dos Estados Unidos.
A operação ocorre em um momento delicado para Cuba, que enfrenta falta de alimentos, medicamentos e energia, além de pressão externa crescente. Segundo os relatos publicados nos últimos dias, o governo brasileiro tenta apresentar a ação como resposta humanitária, sem misturá-la oficialmente à disputa geopolítica. Ainda assim, a ajuda deve continuar cercada de debate político, tanto pelo contexto regional quanto pelo calendário eleitoral brasileiro.



