Alta no custo dos jazigos e falta de espaço impulsionaram o uso de imóveis para guardar urnas funerárias; governo agora quer barrar a prática
A China decidiu apertar o cerco contra o uso de apartamentos residenciais como espaços improvisados para guardar urnas com cinzas de familiares mortos. A nova legislação funerária do país passa a proibir que imóveis residenciais sejam usados especificamente para esse fim, prática que ganhou força em meio ao alto custo dos cemitérios e à escassez de jazigos, sobretudo nos grandes centros urbanos. A medida entra em vigor às vésperas do Qingming, tradicional festival de homenagem aos mortos no calendário chinês.
Nos últimos anos, famílias passaram a comprar unidades em prédios pouco ocupados ou em complexos residenciais desvalorizados para transformá-las em salas de culto ancestral. Esses imóveis, conhecidos informalmente como “apartamentos de cinzas” ou bone ash apartments, costumam ter janelas lacradas, cortinas fechadas e ambientes adaptados para rituais, com velas, luzes e urnas organizadas por gerações. Em muitos casos, a solução saía mais barata do que adquirir um espaço em cemitério público.
O avanço dessa prática expõe um problema maior vivido pela sociedade chinesa: a combinação entre envelhecimento populacional, urbanização intensa, pressão sobre o mercado funerário e falta de espaço nas cidades. Reportagens internacionais apontam que, além de mais acessíveis, esses apartamentos davam às famílias maior controle sobre os ritos funerários e, em alguns casos, ainda eram vistos como um ativo imobiliário em um mercado enfraquecido.
Ao proibir o uso de residências como local de armazenamento de cinzas, o governo chinês tenta recolocar o tema sob controle público e limitar enterros ou homenagens fora de áreas oficialmente autorizadas. A decisão, porém, já provoca dúvidas sobre a fiscalização e reacende o debate sobre o preço da morte na China, onde muitas famílias dizem recorrer a alternativas informais não por tradição, mas por necessidade econômica.



