Reposição hormonal na menopausa não eleva risco de morte, aponta estudo; entenda por que o tema gera debate.

Análise com quase 900 mil mulheres não encontrou aumento na mortalidade entre usuárias da terapia hormonal; resultado ajuda a reavaliar preocupações surgidas após estudos dos anos 2000.
Uma pergunta acompanha a medicina há mais de duas décadas quando o tema é menopausa: a reposição hormonal é segura?

Um grande estudo publicado em fevereiro no British Medical Journal (BMJ) buscou responder a essa questão. Após acompanhar 876 mil mulheres por mais de dez anos, os pesquisadores concluíram que a terapia hormonal usada na menopausa não está associada ao aumento da mortalidade geral.

O resultado é considerado relevante porque, na epidemiologia, a mortalidade é vista como um desfecho final, capaz de refletir o impacto acumulado de doenças graves, como câncer e problemas cardiovasculares.

Em outras palavras, quando um tratamento aumenta de forma significativa o risco dessas doenças, esse efeito costuma aparecer também nas taxas de morte observadas ao longo do tempo.

O que exatamente o estudo analisou

A pesquisa utilizou registros nacionais de saúde da Dinamarca e acompanhou mulheres nascidas entre 1950 e 1977, todas vivas aos 45 anos no início da análise.

Entre elas, cerca de 104 mil utilizaram terapia hormonal para menopausa em algum momento da vida. O acompanhamento médio foi de 4,3 anos, permitindo avaliar possíveis efeitos de longo prazo.

Após ajustar fatores como idade, doenças pré-existentes e nível socioeconômico, os pesquisadores compararam o risco de morte entre mulheres que usaram e que nunca utilizaram a terapia hormonal. O resultado mostrou que o risco de mortalidade foi praticamente igual nos dois grupos.

Também não foram observadas diferenças relevantes nas mortes por câncer ou doenças cardiovasculares.

Um resultado chamou a atenção: mulheres que passaram por remoção cirúrgica dos ovários entre 45 e 54 anos e fizeram reposição hormonal apresentaram redução de 27% a 34% no risco de morte, em comparação com aquelas que não utilizaram a terapia.

Esse achado reforça uma prática já consolidada na medicina: quando a menopausa ocorre precocemente — especialmente após cirurgia — a reposição hormonal costuma ser recomendada.

Por que o tema é tão controverso

A percepção da medicina sobre a terapia hormonal mudou diversas vezes ao longo das últimas décadas.

Nos anos 1990, a reposição hormonal era amplamente prescrita. Além de aliviar sintomas como ondas de calor, insônia e ressecamento vaginal, muitos médicos acreditavam que ela poderia também proteger o coração e os ossos das mulheres após a menopausa.

Essa visão mudou de forma abrupta em 2002, quando foi publicado um dos estudos mais influentes da história da saúde feminina: o Women’s Health Initiative (WHI).

O ensaio clínico acompanhou mais de 16 mil mulheres e encontrou associação entre a terapia hormonal combinada — estrogênio e progesterona — e aumento do risco de alguns eventos graves, como:

* câncer de mama
* infarto
* AVC
* trombose

A repercussão foi imediata. O estudo foi interrompido antes do previsto por questões de segurança, e manchetes ao redor do mundo passaram a alertar sobre os possíveis riscos da reposição hormonal. Em poucos anos, o uso da terapia caiu drasticamente em diversos países.

ℹ️ Parte da confusão gerada após o estudo também está relacionada à forma como os resultados foram divulgados.

Na época, muitos dados foram apresentados em risco relativo, uma medida estatística que compara a probabilidade de um evento entre dois grupos.

O problema é que, para quem não está familiarizado com esse tipo de estatística, os números podem parecer mais alarmantes do que realmente são.

Segundo o oncologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, um aumento de 25% no risco relativo não significa que 25% das mulheres desenvolverão a doença.

“Às vezes o risco passa de 2% para 2,5%. Em termos estatísticos isso representa um aumento de 25%, mas na prática é uma diferença pequena”, explica.

Sem essa contextualização, muitas pessoas interpretaram que o risco de câncer de mama poderia chegar a 25%, o que ajudou a ampliar o medo em torno da reposição hormonal.

No ano seguinte, em 2003, outro estudo de grande repercussão reforçou essa preocupação: o Million Women Study, realizado no Reino Unido com mais de um milhão de participantes.

A pesquisa também encontrou associação entre uso de terapia hormonal e maior risco de câncer de mama.

O estudo teve grande impacto por envolver um número enorme de mulheres. Porém, diferentemente do Women’s Health Initiative, tratava-se de um estudo observacional, ou seja, comparava mulheres que já utilizavam ou não a terapia hormonal no cotidiano.

ℹ️ Esse tipo de estudo consegue identificar associações, mas nem sempre consegue provar uma relação direta de causa e efeito.

Na época, porém, essa diferença entre associação e causalidade nem sempre ficou clara fora do meio científico. Isso ajudou a consolidar a percepção de que a reposição hormonal seria um tratamento amplamente perigoso.

Mas a história científica não terminou ali.

A “janela de oportunidade” e seus efeitos

Nos anos seguintes às primeiras pesquisas, cientistas passaram a reavaliar os dados e perceberam que alguns fatores importantes não haviam sido plenamente considerados nas interpretações iniciais. Um deles era o **perfil das mulheres incluídas nos estudos**.

No Women’s Health Initiative, por exemplo, a idade média das participantes era de 63 anos, e muitas já estavam há mais de uma década na menopausa.

Hoje se sabe que esse detalhe pode influenciar fortemente os resultados. Iniciar a terapia hormonal muitos anos após a menopausa parece ter um perfil de risco diferente de começar o tratamento no início dessa fase da vida.

Esse entendimento levou ao conceito conhecido como “janela de oportunidade”. Segundo essa ideia, a terapia hormonal tende a ser mais segura quando iniciada antes dos 60 anos ou até cerca de 10 anos após o início da menopausa.

Estudos mais recentes passaram a mostrar que os riscos associados à terapia dependem de vários fatores, como:

* idade da mulher;
* tipo de hormônio utilizado;
* dose administrada;
* via de administração do tratamento.

É nesse contexto que se insere o novo estudo publicado no British Medical Journal (BMJ). Ao analisar registros de saúde de quase 900 mil mulheres, acompanhadas por mais de uma década, os pesquisadores não encontraram aumento na mortalidade entre usuárias da terapia hormonal.

Esse resultado não invalida estudos anteriores, mas contribui para reinterpretá-los à luz do conjunto de evidências acumuladas nas últimas duas décadas.

O risco de câncer ainda preocupa?

Sim — mas hoje a discussão é mais precisa.

No estudo publicado no BMJ, os pesquisadores também investigaram se a terapia hormonal estava associada a mortes por câncer.

Ao separar as causas de morte, não foram encontradas diferenças claras na mortalidade por câncer entre mulheres que utilizaram reposição hormonal e aquelas que nunca fizeram o tratamento.

Em análises mais detalhadas, foi observado um pequeno aumento no risco de morte por câncer entre mulheres que usaram a terapia por menos de cinco anos, mas essa diferença não se manteve entre aquelas que utilizaram o tratamento por períodos mais longos.

Para o ginecologista Mauricio Abrão, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, esses resultados precisam ser interpretados dentro do conjunto de evidências acumuladas.

“Hoje sabemos que a relação entre terapia hormonal e câncer não é uniforme. Ela depende do tipo de hormônio utilizado, da duração do tratamento e do perfil de risco da paciente”, afirma.

O oncologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, acrescenta que parte da percepção de risco foi influenciada pela forma como os dados de estudos anteriores foram interpretados.

“Um aumento de 25% no risco relativo pode parecer muito grande, mas às vezes representa uma mudança pequena em termos absolutos — por exemplo, de 2% para 2,5%”, explica.

Por isso, o risco precisa ser analisado no contexto individual de cada paciente, levando em conta o tipo de terapia utilizada e o tempo de tratamento.

O que a mulher precisa saber antes de considerar reposição hormonal

Apesar das novas evidências mais tranquilizadoras, especialistas destacam que a terapia hormonal não deve ser indicada automaticamente para todas as mulheres.

A principal indicação continua sendo o tratamento de sintomas moderados ou intensos da menopausa, como ondas de calor, insônia e alterações de humor.

Segundo a ginecologista Leila Correa , do Hospital Sírio-Libanês, fatores como idade, intensidade dos sintomas e histórico de saúde continuam sendo centrais na decisão clínica.

Antes de prescrever o tratamento, os médicos costumam avaliar aspectos como:

* idade e tempo desde a menopausa;
* presença ou ausência de útero;
* risco cardiovascular;
* histórico pessoal ou familiar de câncer de mama;
* histórico de trombose.

Também existem contraindicações claras, como:

* câncer de mama sensível a hormônios;
* tromboembolismo prévio;
* doença hepática ativa.

Outro ponto importante é que existem diferentes tipos de terapia hormonal.

Mulheres que já retiraram o útero podem utilizar apenas estrogênio. Já aquelas que ainda têm útero precisam associar progesterona, para proteger o endométrio.

Além disso, formulações transdérmicas, como adesivos ou gel, parecem ter menor impacto no risco de trombose quando comparadas aos comprimidos orais.

O que muda com o novo estudo

Os resultados do novo estudo não significam que a reposição hormonal seja totalmente livre de riscos. No entanto, reforçam uma conclusão importante da medicina atual: quando bem indicada e utilizada no contexto adequado, a terapia não parece aumentar a mortalidade das mulheres.

Para especialistas, isso ajuda a equilibrar um debate que, por muitos anos, foi marcado por interpretações simplificadas de estudos antigos.

E traz de volta à consulta médica um princípio fundamental da prática clínica: avaliar cada caso individualmente, ponderando benefícios e riscos antes de iniciar o tratamento.